O petróleo ultrapassou US$ 115 por barril nesta segunda-feira (30) e encaminha março para uma valorização de 59% — o maior salto mensal desde 1990. A alta de mais de 2% no dia reforça uma escalada alimentada pelas tensões no Oriente Médio e pela ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz.
O choque nos preços vai além do barril: combustíveis, gás natural, fertilizantes, plásticos e alumínio subiram juntos, sinalizando uma onda inflacionária com potencial de pressionar economias ao redor do mundo.
Commodities em alta e mercados sob pressão
A interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz desencadeou uma reação em cadeia nos mercados de commodities. Petróleo, gás natural, fertilizantes, plásticos, alumínio e combustíveis de aviação e navegação subiram juntos. O encarecimento dessas matérias-primas tende a se espalhar para alimentos, medicamentos e produtos petroquímicos.
O alumínio atingiu o nível mais alto em quatro anos após ataques aéreos iranianos contra dois grandes produtores do Oriente Médio durante o fim de semana. A Ásia concentra a maior exposição ao choque: o índice MSCI Ásia-Pacífico (excluindo o Japão) recuou 1,8%, e o Nikkei encerrou o dia em queda de 2,8%. Na Europa, as bolsas recuperavam parte das perdas e avançavam cerca de 0,6%.
O ciclo de alta teve início quando o Estreito de Ormuz foi bloqueado em 28 de fevereiro e o petróleo disparou 30% em um único dia, chegando a US$ 120 — o ponto de partida de uma escalada que já acumula 59% em março.
JPMorgan projeta US$ 150 se bloqueio persistir
Bruce Kasman, economista-chefe global do JPMorgan, estima que, se a passagem permanecer bloqueada por mais um mês, o barril poderá se aproximar de US$ 150, além de provocar restrições no consumo de energia pela indústria. Na terceira semana do conflito, o Brent já acumulava alta superior a 40% e organismos internacionais alertavam que a persistência do bloqueio poderia desencadear uma espiral inflacionária global — cenário que agora se consolida.
Diante desse panorama, investidores passaram a prever que os juros possam permanecer elevados por mais tempo em diversos países. A alta do petróleo é apontada como o principal vetor do risco inflacionário global.
Trump pressiona o Irã enquanto Paquistão busca mediação
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a pressionar o Irã nesta segunda-feira via redes sociais, afirmando que o país deve reabrir o Estreito de Ormuz ou poderá enfrentar ataques a instalações de energia, como poços de petróleo e usinas. Ao mesmo tempo, o Paquistão anunciou que pretende sediar negociações para encerrar o conflito nos próximos dias.
O governo iraniano, por sua vez, acusou os Estados Unidos de preparar uma possível ofensiva terrestre e reforçou sua presença militar na região. Os investidores acompanham sinais contraditórios sobre o rumo do conflito.
Para Eren Osman, diretor da gestora Arbuthnot Latham, o mercado está especialmente sensível ao comportamento do petróleo — mas o analista não espera um conflito prolongado, pois acredita que o governo americano tem limites para tolerar quedas prolongadas nas bolsas.
O dólar opera próximo da máxima em dez meses, com o índice da moeda marcando 100,25 pontos. No Japão, alertas de intervenção cambial fizeram a divisa americana recuar 0,5%, para 159,5 ienes. O euro era negociado a US$ 1,1493. Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, deve comentar o cenário ainda nesta segunda-feira. No Brasil, o choque do petróleo se traduz em dólar mais caro e revisão consecutiva da inflação: o boletim Focus já elevou a projeção do IPCA a 4,31%, com crescentes apostas de que o Banco Central reduza os juros em ritmo mais lento.
